quinta-feira, 17 de maio de 2012

Julgamentos


Assisti atentamente no último domingo a entrevista concedida por Vanusa ao Fantástico. A cantora, hoje com 64 anos, e que no movimento da Jovem Guarda fez história ao lançar grandes hits que se transformaram em obras inesquecíveis, está voltando, após cinco meses internada em uma clínica no interior de São Paulo, onde passou por um longo tratamento de desintoxicação.
A intérprete de “Pra nunca mais chorar” e “Manhãs de setembro”, havia saído de cena, depois de ter sido alvo de gozações. Ela estava sendo lembrada não por sua obra, e sim, por ter protagonizado cenas que, caído na Internet, a ridicularizaram.
‘Pagou o mico’, como se diz na gíria, ao esquecer a letra do Hino Nacional em sessão da Assembléia Legislativa de São Paulo em 2009 e de, no ano passado, misturar letras em outra apresentação.  Nas redes sociais, foi o alvo. Todos riram. Aliás, eu também.
Ela contou, de cara limpa, em rede nacional, que tomava muitos remédios, de todos os tipos. Estava doente. Viciado nos medicamentos de tarja preta, e mais, desenvolveu uma compulsão por eles.
Além disso, passou a consumir bebidas alcoólicas. Por que? "Quando eu chegava nos lugares e via as pessoas felizes, eu queria aquela felicidade para mim. Eu bebia, e por pouco que eu tomasse, potencializava todos aqueles remédios. Você começa a achar que o mundo te esqueceu, que você não é digna de estar viva”, declarou. Percebeu então que precisava de ajuda. E buscou.
E nas redes sociais, na Internet, nos programas de humor na TV, ela era motivo de ‘chacota’ e o povo, todos nós, ríamos de sua ‘desgraça’, sem conhecer sua verdade.
 "Minha vontade era sumir, desaparecer”, disse ela.
Bom, por que falo dela, e deste tema na coluna desta semana?
Pelo fato de que, ao entrar na ‘onda’ e achar graça do feito, esqueci – assim como todos, do ser humano na outra ponta. Rimos todos, satirizamos, sem saber o que de fato estava ocorrendo.
Assistindo-a. Ouvindo-a atentamente, fiquei a refletir: como podemos nós agir assim? Como somos capazes de rir da ‘desgraça’ alheia? Por que julgamos os outros – e os condenamos – sem sequer dar-lhes o direito da defesa, da apresentação dos argumentos, das explicações?
Rimos do outro e esquecemos dos sentimentos. Sim, porque na verdade, se vemos na rua um idoso cair e a cena for – digamos – espetacular, não olhamos para a dor que ele sente mas sim, enaltecemos o ‘belo tombo’. Tudo bem, você dirá: eu não sou assim! E nem estou afirmando isso. Mas se olharmos para nossas ações, nossas atitudes, vamos ver que, volta e meia ‘somos sim, assim’.
“Não julgueis para não ser julgados”. É bíblico, é do cristianismo. É regra para o ser humano. Mas quantos de nós esquecemos desta verdade e passamos a vida a destilar ‘nosso veneno’. Apontamos erros – dos outros – repreendemos as falhas e atitudes – dos outros – e condenamos seus deslizes, seus tropeços nesta experiência de Humano Ser. Não percebemos que por trás de cada erro, cada queda, cada falha – independente do seu tamanho – houve a tentativa do acerto, do fazer o melhor, do servir.
Pensemos nisso. Eu estou pensando. Aliás, refletindo ao ouvir a canção “Palhaço” interpretada por Vanusa. Um sucesso que ela também errou a letra e que – a letra – ironicamente nos dá seu recado...

Vejam só
Que história boba eu tenho pra contar
Quem é que vai querer acreditar
Eu sou palhaço sem querer

Vejam só
Que coisa incrível o meu coração
Todo pintado nessa solidão
Espera a hora de sonhar

Ah, o mundo sempre foi
Um circo sem igual
Onde todos representam bem ou mal
Onde a farsa de um palhaço é natural....

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Flor do deserto


“Num mundo que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo”. A frase foi imortalizada no personagem Pequeno Príncipe, obra do francês Antoine de Saint-Exupéry, e que até hoje encanta o mundo.
O morador solitário do minúsculo B-612 gostava de viajar pela galáxia e em suas andanças conhecer pessoas, fazer amigos, se aventurar.
Tinha ele sim, sede de encontrar amigos. Conhecê-los o faziam sentir-se bem.
E a cada novo contato, nova experiência, o desejo por mais conhecimento e conquistas se ampliava.
É dele, o Pequeno Príncipe, a frase – também eternizada pelo tempo - “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Sem sombra de dúvidas, um recado corretamente perfeito para cada um de nós, nos dias atuais.
Aliás, no contexto geral, o personagem faz isso em todas as situações.
O livro foi lançado em 1945 e parece inacreditável que tal frase “Num mundo que se faz deserto”, temos sede de encontrar um amigo caiba bem nos dias atuais, passados 67 anos de sua publicação.
E de fato, muitas vezes nos deparamos com tal cenário. Somos um único e solitário em meio à multidão. Corremos, incessantemente em busca do que nos preenche, completa. E não encontramos, e continuamos a busca. E nos perdemos. Conheço tantos assim.
Seja no campo material ou no espiritual, vê-se pessoas perdidas e a procura, de si, ou de algo mais.
Infelizes e com uma espécie de vazio – muitas vezes inexplicável – correm (quando não se escondem) e, entre tantos outros que vem e vão, se deparam com uma paisagem morta, pálida, desértica. Precisam se encontrar, encontrar, viver.
Precisam do abraço, do carinho, do ombro amigo. Necessitam de, neste mundo que se faz deserto, matar a sede – de encontrar um amigo.
E neste encontro – ou reencontro – fazer valer a máxima, de que precisa cumprir o estabelecido. Já não está só, e tendo conquistado, cativado, acaba se tornando responsável – inteiramente responsável – pelo outro. E assim, nesta troca, preenchendo o vazio, pois é com o outro que se completa.
Antoine de Saint-Exupéry foi feliz na inspiração para compor o clássico. Afirmara no texto do Pequeno Príncipe, o quanto era necessário dar valor à rosa do jardim. No caso, à pessoa a qual, encontrada no deserto da vida, tornara-se especial.  “Foi o tempo que investiste em tua rosa que fez tua rosa tão importante”.
E é este tempo que devemos ter. E neste cultivar, conquistar, reconquistar – fazer valer à pena.
Olhar o mundo com olhos de amor. Ver que não estamos só neste universo. Que somos parte de um todo e – na busca em fortalecer a caminhada como aprendizes na tarefa de Humano Ser, viver.
Ah, e não esquecer, conforme ensina Antoine de Saint-Exupéry que “apenas se vê bem com o coração, pois nas horas graves os olhos ficam cegos”.